
Agora não entendo bem o motivo de ter levado um chacoalhão, mas que levei, levei. Talvez porque tenha sido tão óbvio, e a gente sabe o quanto o óbvio às vezes choca. Mas deixa de nhém-nhém-nhém e vamos direto ao assunto.
A chacoalhada veio quando assisti a uma palestra de Alejandro Formanchuk, Presidente da Associação Argentina de Comunicação Interna e especialista em comunicação corporativa. Foi no Seminário Internacional “Desafio global: comunicar-se com todo mundo em qualquer lugar”, realizado no dia 3 de agosto pela Abracom, a Associação Brasileira das Agências de Comunicação, da qual Gisele Lorenzetti, diretora-executiva aqui da LVBA, é presidente.
Acho que foi por ver tantas vezes acontecer o que Alejandro relatou que pensei: “opa, deixa eu prestar atenção nesse moço”. Se você é comunicador corporativo, vai entender. Pois veja.
“Quando peço para as empresas me mostrarem seus planos de comunicação interna, imediatamente me apresentam uma planilha Excel: campanha antitabaco em agosto, intranet com atualização diária, mural perto da máquina de café renovado semanalmente, revista mensal. Sempre digo que isso não é um plano de comunicação, é um plano de meios, e nem é preciso pagar um comunicador para fazer. Se você só me permite trabalhar com meios, não posso fazer mudanças, só posso levar informação, e isso não é comunicação interna”.
A afirmação veio acompanhada de uma provocação sobre qual herança podemos deixar para as organizações às quais servimos como comunicadores. Deixaremos apenas uma intranet bem alimentada e uma revista bem diagramada? “Comunicação interna não é uma newsletter ou uma área dentro da empresa: é a essência da organização. Comunicação é a transformação da cultura organizacional; cultura é a comunicação em movimento”, cutucou o argentino.
E antes que os comunicadores ali presentes pudessem perguntar “como hacer”, veio a resposta: “O primeiro passo para a comunicação transformadora é sair da logística para a influência: a mensagem não só precisa chegar, mas ser revertida em uma ação. Para isso, o receptor tem que entender e aceitar a mensagem. E ele só irá fazer isso se acreditar no que está sendo divulgado. O mais importante para um comunicador é ter credibilidade, esse é o único capital para ter sucesso em comunicação”.
Alejandro mencionou ainda que o desafio – e quem atua na área bem sabe - é deixar claro para os líderes da empresa que eles são o verdadeiro departamento de comunicação interna. “Da forma de liderar, passando pela maneira de atrair clientes, até as ações de recursos humanos, tudo é comunicação interna”, cravou o especialista emendando: “Como posso fazer comunicação e, portanto, transformação, se a organização não mudar? Não posso obrigar as lideranças da empresa a seguirem um caminho, mas posso alertá-las sobre o impacto que uma determinada decisão poderá causar. E não venha depois pedir para reverter no mural, porque não vou conseguir”.
E como Alejandro lia meus pensamentos sobre a missão hercúlea que é convencer as lideranças corporativas, logo acrescentou: “Esqueçam o ego e exercitem a paciência”.
Recado copiado, afinal, comunic-Ação é movimento, não duvidemos de nada. Sigamos, “pero sin perder la ternura jamás”.
Patrícia Gonçalves é jornalista com 16 anos de experiência em televisão, assessoria de imprensa e comunicação corporativa. Tem asas nos pés, pergunta muito e procura tudo, mas não sabe se vai achar.