quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Eu, Forrest Gump

Bem, eu moro em São Caetano do Sul desde que nasci. Sim, tenho planos de sair de lá. Não, isso não vai acontecer tão rápido assim. E não, não tem muita coisa pra fazer por lá. Fãs de São Caetano, admitam, atualmente o point mais popular que vende açaí simplesmente não funciona nas noites de sextas-feiras.

A questão é que meus três primeiros empregos foram por lá, nesse pacato lugar – quer dizer, eu poderia ir à pé, se tivesse paciência para tanto. (Eu tinha.) Mas logo no segundo ano da faculdade comuniquei ao pessoal:

- Mãe, vó, arrumei um trabalho em Moema.

- Meeeu Deeus do céu, é longe! Você vai ter que tomar não sei quantos ônibus e... – bom, imaginem que essa fala se estendeu por minutos que eu jamais serei capaz de mensurar. Mas Moema, lá fui eu! (E eram necessários dois ônibus e uma hora e meia, pra quem ficou curioso.)

Meses depois, fui para o Itaim Bibi. “Mariaaana! Você não sossega?!”. Bom, a resposta foi não, não sossego. Agora o percurso exigia ônibus, metrô e depois ônibus de novo, o que somava duas horas de viagem. Ir para a praia leva menos tempo que isso – e não vou nem mencionar a situação da minha volta para a faculdade no fim do dia porque esse é um período da minha vida que eu prefiro esquecer. *Essa é a deixa para quem quer se comover e compartilhar um depoimento*

E, quase um ano depois, adivinhem? Fui para o Butantã. Sim, cheguei na LVBA! As pessoas acharam que eu tinha perdido o pouco juízo que me restava. “Você quer passar quantas horas por dia no metrô, menina?! Você não consegue nem abrir um livro sem passar mal no ônibus!”. Sim, sim, sim, verdade! Mas, para a minha enorme surpresa, eu levo apenas cinquenta minutos da minha casa até a Alvarenga 806. Dá vontade de abraçar quem trouxe o metrô até aqui mas uh, políticos, melhor não abraçar.

O legal é que essas aventuras por agências de comunicação nessa São-Paulo-de-meu-Deus não renderam apenas experiências profissionais – mas também um conhecimento razoável (e ainda pequeno) das linhas de trem, metrô e ônibus dessa cidade... E algumas histórias pra contar!

Outro dia, estava eu com um exemplar mau humor matinal num trem quando um velhinho de boina entra no vagão e começa a encarar a moça que estava na minha frente:

- Moça, me dá um sorriso? - e sorri pra ela. Não vi a expressão no rosto dela, claro, mas posso imaginar aquela cara tipicamente paulistana de “oh, não! Um estranho falando comigo! Deve ser louco ou quer me assaltar”. Mas ele insiste:

- Vamos, não vai doer! - e, com a ponta dos dedos, puxa os cantos dos próprios lábios para cima, como que encorajando a assustada pessoa metropolitana. Eu não resisti e, sem ter nada a ver com a história, já estava sorrindo antes mesmo dessa segunda investida do velhinho. Mas já começava a ficar tensa com a reação da moça. O que ela iria fazer? Foi então que...

- Iiiisso! Viu, garota, um sorriso pode salvar seu dia!

- Obrigada! - a moça à minha frente, embora eu não pudesse ver, obviamente sorria e se mexia como que aliviada, livre da fobia de estranhos que é natural a quem vive por muito tempo na selva de pedra.

O velhinho desceu na próxima estação, se despedindo da tal moça com uma reverência com sua boininha cinza.

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Mariana Lins não gosta de dissertar sobre a moral das histórias que conta. Faz parte do time de formandos enlouquecidos com TCC no quadro da LVBA e também do time de adoradores (sic) do transporte público – mas acredita em soluções simples para problemas compl... que problemas?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Já ouviu falar de Esquel?

Até meados deste ano, honestamente, eu nem sequer saberia dizer sua localização. Mas, como muitos outros brasileiros, chilenos, argentinos e uruguaios, meu destino turístico deste ano mudou de rumo em função do vulcão Puyehue. O primeiro pensamento foi: que azar! Será que depois de 50 anos quieto, tinha que entrar em erupção agora?

O estresse de buscar alternativas, mudanças infinitas de voos, uma vez que nosso roteiro inicial – fazer a nova travessia dos Lagos Andinos, via Pucón até San Martin de Los Andes - ficou impossível com todos os aeroportos fechados, nada foi se comparado àqueles que de fato estavam e estão vivenciando as consequências do vulcão.

Finalmente, um dia antes de embarcarmos, surgiu uma rota alternativa: São Paulo – Buenos Aires – Esquel. Vamos ou não? Minha irmã e eu pesquisamos durante meia hora e decidimos arriscar e tentar algo novo, ou melhor, não planejado. A começar pela hospedagem – liguei para três lugares e em cinco minutos optamos pela Hosteria El Coirón, que recomendo.

E qual não foi nossa grata surpresa com a cidade e seus habitantes! Esquel está localizada no noroeste da província de Chubut, na Patagônia Argentina, em Futaleufú. É a maior e mais importante cidade da região, e suas principais atrações turísticas são o Parque Nacional Los Alerces e a estação de esqui La Hoya. Lindos!

Sua fundação está diretamente ligada à chegada dos galeses a Chubut que – após muitas tentativas de outros colonizadores – sobreviveram às condições locais e iniciaram a povoação perto dali, 25 Km ao sul de Esquel, na cidade de Trevelin (seu nome em galês significa “povo do moinho”, em função do moinho Los Andes, que lá existia).

Em Trevelin, por sinal, não deixe de tomar um chá na Casa de Té Nain Maggi, a mais tradicional do lugarejo, onde provará a famosa Torta Negra, receita criada pelas galesas - incluindo a própria Nain Maggi - que, durante o período de imigração e diante da falta de alimentos, criaram essa maravilha com poucos ingredientes como nozes, frutas secas e licor. O resultado dos tempos difícies é uma verdadeira iguaria, que só de lembrar dá água na boca!

Mas voltando a Esquel, a cidade conta com muitos lagos glaciais existentes em suas imediações, sendo o mais próximo e famoso o lago La Zeta. É também uma ótima opção no verão, pois oferece muitas atrações de turismo de aventura como trekking, cavalgadas, mountain bike, rapel, os exóticos e coloridos túneis de gelo (que se formam no verão), caiaques e a escalada na Pedra Parada. Uma boa opção é conhecer os pacotes das agências locais, como os da Limits Adventure.

Em relação à culinária, Esquel oferece diferentes opções para todos os gostos. Vale a pena desfrutar das trutas e carnes do Las Cumbres Blancas, La Montana, La Barra e Las Bayas e do simpático e delicoso restaurante italiano Don Chiquino. E para comprar alguns “regalos”, além de chás, vinhos orgânicos e diversos produtos regionais, visite a “Mil Sabores” (na Rivadavia, 1054). Não vai querer sair desta tão simpática loja, tanto quanto terá que provar os sorvetes regionais da região, como o de frutas do bosque. Viajar também é um festival de sabores. E se for como eu, um dos primeiros lugares que desejará conhecer é um supermercado para comprar queijos, vinhos e defumados!

Mas, o que mais chamou a nossa atenção, ou mellhor, a atenção dos esquelenses, foi o pequeno grupo de brasileiros que andava prá lá e pra cá, perguntando sobre tudo e que havia optado por permanecer em Esquel. Não sabiam o que fazer por nós! Tivemos, inclusive, o prazer de almoçar em uma cabana típica dos guardas florestais dentro do Parque Nacional Los Alerces. Uma experiência única, que jamais vamos esquecer.

E também recordar das histórias e ensinamentos de pessoas queridas de Esquel e região, que estabeleceram um código de ética para não promover o turismo em suas cidades, e ajudarem na recuperação de Bariloche, que vivia novamente uma calamidade pública e que ainda levará muito tempo para se recuperar. Esquel, em 2008, passou por situação idêntica devido à erupção do também vulcão chileno Chaitén.

E no fim, nós só mudamos um pouco a rota e conhecemos um lugar diferente com pessoas muito amáveis! Se tiver uma oportunidade, não deixe de conhecer Esquel.

Valéria Allegrini já está planejando suas próximas viagens e ainda quer conhecer muitas regiões da Cordilheira, mesmo com a ameaça iminente de novas erupções vulcânicas. Mas já aprendeu a consultar com frequência o Sernageomin - El Servicio Nacional de Geología y Minería.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

A felicidade de ser “Mãe”drinha

Desde sempre gosto de criança. Na verdade tenho uma teoria de que filho dos outros é melhor que filho da gente, já que é possível devolvê-lo para os pais quando começam a chorar ou quando você está com a paciência esgotada. Sei que esta teoria será quebrada quando eu tiver um filho, mas até lá...

Minha paixão por criança me rendeu dois filhos postiços, ou afilhados. E eles são tudo na minha vida! O melhor de ser madrinha é que eu pude entender mais de perto o que é a tal felicidade de ser mãe, já que, de uma forma ou de outra, eles são meus filhos.

A primeira alegria foi a chegada do Leonardo em 2006. Ainda na barriga da mãe, ele pulava feito cabrito quando ouvia a minha voz ou quando eu cutucava a pança da minha comadre. Eu falava para ele: “moleque, a prima Dani chegou”. E ele começava a se mexer! Nesta época eu nem sonhava em ser madrinha do Léleo. O presente me foi dado um pouco antes de ele nascer, pois a mãe e o pai dele entenderam que o moleque havia escolhido a própria madrinha.

E foi com o Leonardo que aprendi o que é ser madrinha. Não é fácil exercer este papel e também não é fácil aceitá-lo, já que a responsabilidade é tremenda: ser madrinha é ser mãe, é assumir responsabilidades com relação à vida e a segurança de uma criança, que nem foi você quem gerou. Com o Leonardo aprendi a sentir coisas que só as mães sentem: um amor infindável misturado com pitadas de medo, responsabilidade, insegurança, felicidade e vontade de ser eterno, para poder acompanhar tudo o que acontecerá na vida deste serzinho sem perder nadinha.

Além de todas as responsabilidades que envolvem o papel de ser madrinha, existem também muitas coisas boas, como a cumplicidade, o companheirismo, as descobertas e a possibilidade de fazermos muitas coisas juntos. Minha comadre sempre me deu a liberdade de agir com o Leonardo da forma como eu quisesse. Diante desse passe livre, instituí uma única regra na minha relação com o meu “porqueira”: ele não pode me chamar de qualquer outra forma que não madrinha. E ele obedece. É como se ele me chamasse de mãe. E isso enche meu coração de alegria.

Foi comigo que o meu filho torto comeu chocolate pela primeira vez. Lembro da carinha dele até hoje; sua face apresentava traços de repulsa – gerados pela textura do chocolate – e de realização, pois estava sentindo um gosto que nunca havia sentido antes. O primeiro kit de pintura com o dedo foi um presente da madrinha: serviu para pintar um carrinho de madeira, o chão da sala, a parede do quarto e também para saber que gosto tinha. Sorte que o guache era atóxico! O primeiro dedo na cobertura do bolo foi uma cena incrível. Ele gostou tanto de fazer, que nunca mais abandonou a prática e sempre se refere a mim quando meleca o dedo em algum bolo. As primeiras massinhas de modelar, os primeiros desenhos de colorir, os primeiros segredos de amor... Uma infinidade de “primeiras vezes” marcam nossa relação.

Toda vez que penso em ter um filho, peço a Deus que ele seja minimamente parecido com o Leonardo, e que nossa relação seja permeada pelo amor e pela cumplicidade que existe entre nós. Ah, vale ressaltar que o Leléo me ensinará tudo que preciso saber sobre como cuidar de uma criança, já que ele possuí larga experiência no ramo por conta do seu irmão mais novo.
Deixando o meu primeiro filho de lado, só um pouco, mais recentemente tive novamente a alegria de me sentir “mãe”. O presente veio da minha amiga de infância e se chama Henrique. Com ele ainda não tive a chance de realizar algumas primeiras coisas, pois faz tempo que não encontro meu reizinho. Culpa toda minha, mas em breve vou me desculpar com ele e começar a fazer tudo aquilo a que temos direito!

Apesar de não serem meus filhos de sangue, estes dois pequenos seres mudaram a minha vida, a minha forma de amar e trouxeram para os meus dias muita alegria e vontade de continuar a seguir em frente. Não gerei nenhum dos dois, mas o amor que sinto por eles é incondicional e me deixa provar um pouquinho do gosto bom de ser mãe.


Dani Mesquita é apaixonada por seus afilhados e se sente mãe de cada um deles. Enquanto não gera seus filhos, curte os rebentos alheios e aproveita para devolvê-los aos pais, já que não poderá fazer isso com os dela.


quinta-feira, 28 de julho de 2011

O Segredo de Alline

Parece que foi ontem que eu escrevi o meu primeiro texto para o 806 como assistente de eventos. Aliás, foi no extinto departamento de eventos que a minha carreira começou aqui. Foram milhares de desafios, um ano que definitivamente mudou a minha vida. Foi aqui na LVBA que consegui deixar para trás muitos medos e, sem dúvida nenhuma, me tornei mulher e uma Relações Públicas de verdade.

Tenho muito orgulho de dizer que fui uma das poucas pessoas dessa agência que fez um processo de Trainee, passei por eventos, redação, atendimento até chegar ao cargo de executiva de atendimento exclusivo da empresa Mars Brasil. A cada desafio eram noites mal dormidas e aquele friozinho na barriga, mas sempre encontrei aqui segurança e uma confiança absurda no meu trabalho.

Bom, deixei para escrever nesse último post um segredo que poucas pessoas sabem e que resume a paixão pelo o que faço. Os que me conhecem bem sabem a fobia que eu tinha por cachorros. Então, veio o convite para atender a conta de PEDIGREE®. Foi um conflito interno, confesso, mas foi mais uma prova que tudo é possível. Depois de pouco tempo atendendo a conta e tendo que ir a feiras, pegar os cachorrinhos no colo e os entendendo... o medo foi indo embora e a vontade de ajudar na campanha PEDIGREE® Adotar é tudo bom foi tomando conta do meu coraçãozinho. Pois é, até mesmo o meu medo por cachorros eu perdi.

Depois de tanto crescimento e mudanças percebi que a minha história aqui estava chegando ao fim ou pelo menos, dando uma pausa. Os receios foram ficando de lado e um grande sonho que sempre tive foi se tornando realidade. Foi então que decidi, enfim, fazer a tão desejada viagem para o Canadá. Depois do velho e bom ritual de ansiedade (noites mal dormidas e o friozinho na barriga), a decisão foi tomada. E não tenho dúvida que essa coragem foi consequência de tanto aprendizado. Só tenho que agradecer a ótima faculdade e todos os seus integrantes (professores), a LVBA Comunicação. Levo em meu coração e na minha memória todos os momentos vividos e os amigos que fiz aqui, vocês ficarão conhecidos no Canadá.

Alline Roble, a mais nova apaixonada por cães, acaba de completar 25 anos e é literalmente uma mulher de fases. A Relações Públicas, além de baixinha, é leonina... De fato, o Canadá não será o mesmo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Detalhes sobre Diagnóstico de Presença Digital

Sabem aqueles clientes que têm um insight e resolvem entrar nas Mídias Sociais da noite para o dia?

Não! Existem algumas etapas para esse processo. Vou falar aqui sobre aquelas que em minha opinião são as realmente necessárias para uma empresa entrar e agir com inteligência nas mídias sociais. Começo então falando de diagnóstico digital, e falarei na visão de uma agência.

O primeiro passo é o levantamento de informações com os gestores da empresa. Devem ser realizadas reuniões com os mesmos, onde serão levantadas as impressões deles sobre a situação atual da presença digital do cliente; também serão levantados dados e pesquisas julgadas relevantes pelos gestores para o processo.

Para o segundo passo, deve-se fazer a elaboração do briefing. Após o levantamento de informações, é imprescindível que o briefing aconteça para incorporar e registrar os elementos prestados pelos gestores. Esse briefing será destinado à aprovação da empresa e alterado conforme solicitações, para servir de linha-mestra para o projeto.

No terceiro passo fica a análise de métricas, na qual será efetuado um diagnóstico de todas as métricas, adequando-as de acordo com sua aderência e performance. Também serão identificadas métricas faltantes contra um conjunto de boas práticas de mercado.

Para finalizar, dentro da análise de métricas, deve-se realizar o benchmark de mercado. O Benchmark é o levantamento das melhores práticas e destaques nos principais sites, blogs, comunidades e veículos de informação voltados ao segmento da marca. O objetivo do benchmark é encontrar oportunidades e modelos de atendimento ainda não utilizados pela empresa, ou os executando com mais qualidade.

A cereja do bolo fica na apresentação dos resultados. Todo o processo de Diagnóstico de Presença Digital é encerrado com uma apresentação dos resultados. Feito isso, todos os envolvidos terão a oportunidade de contribuir com críticas e sugestões para ajustes no documento final de diagnóstico, que servirá de base para o Planejamento de Presença Digital.

Depois de toda essa receita, tudo pronto para o próximo passo, que é efetivamente o Planejamento Digital. Tema que abordarei no próximo post.

Estudante de Relações Públicas da Universidade Metodista de São Paulo. Ingressou na LBVA em Junho de 2011, onde, atualmente, desempenha a função de Assistente de Relações Públicas.

Cibele Silvia é editora do blog e Revista A Bordo da Comunicação, também escreve para o blog Mídia Boom e o blog Relações. Também é editora de dois livros do #InovadoresESPM: Livro colaborativo de Redes Sociais e Inovação Digital – volumes I e II. Co-organizadora dos eventos: Café com Blogueiros, ERERP 2011 e TEDxUSP.



quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Insustentável Peso do Ser

Muito se fala de algo que só citarei uma vez nesse texto, para não cair na mesma banalidade que pretendo criticar: sustentabilidade (e tudo que é ‘sustentável’, por consequência). Fala-se demais! E ainda que entendamos o conceito e apliquemos algumas das ideias encapsuladas no termo, nessa muleta apoia-se uma infinidade de programas, projetos e prêmios que forçam a barra para se adequar à tendência. E, por enquanto, falamos apenas do microcosmo corporativo, pois se estendermos o assunto ao plano pessoal, familiar, cotidiano, o emprego desse pensamento é ainda mais nebuloso e fugaz.

Minha sensação é que se tem falado pouco do oposto – sobre tudo o que não se pode mais sustentar em uma sociedade que clama caminhar no sentido da conscientização global. E tudo começa pela relação que estabelecemos uns com os outros. É irônico que em cidades como São Paulo, berço de complexos planos de responsabilidade corporativa e afins, as pessoas mal se olhem ou troquem uma palavra sequer em espaços públicos. É claro que não se pode generalizar, mas o que acontece em grande escala é um processo de cultivo do temor e desprezo pelo próximo, nas grosserias trocadas no trânsito, nos gritos em balcões das lojas, nos suspiros tensos nas filas dos bancos. A intolerância é insustentável. O ódio também.

Insustentável é o esgotamento físico e mental a que são submetidos trabalhadores do mundo todo para o farto sustento de um punhado de ricos proprietários, que figuram, cheios de si e sorridentes, na capa da Forbes ou veículo de exaltação do dinheiro que o valha. São vitoriosos, estão no topo da cadeia, a cereja do bolo de um mecanismo que depende da discriminação e da exclusão para se manter. Pior: eles aparecem como responsáveis por empreender, em seus megalomaníacos impérios, aquela tal palavrinha inominável. A empresa mais @(#*#()!#*& do mundo! Será mesmo? A ganância não tem lugar em um "mundo melhor".

Assim como não há jeito de suportar todo esse luxo, materializado em carros, aparelhos eletrônicos de grife e tantas outras tranqueiras caras para o bolso e o planeta, que alimentam a indústria do fetiche. É fácil desejar o bem e abundância para todos quando não se quer abrir mão de absolutamente nada, nenhum supérfluo, para gerar menos lixo, menos cobiça, menos produtos que, em vez de garantir conforto a todos, são feitos para alguns à custa do árduo trabalho de muitos, que nem vão usufruir disso. Para que vivamos em um mundo mais igual, não é possível que todos desfrutem ao mesmo tempo de artigos da mais alta e vazia tecnologia, ou que todo mundo viva em favelas: a gente precisa se encontrar em algum lugar no meio do caminho, e será só quando abdicarmos do que não é necessário e não se sustenta.

É cômodo aguardar que projetos de ONGs e corporações buscando lucros astronômicos deem jeito em problemas seculares, sem que precisemos mover uma palha, mudar uma vírgula em nossa maneira de conduzir a vida simples, a existência individual comum e subestimada. Sistematizar a assistência e o cuidado aos que carecem de tudo, apenas como mais um trabalho delegado a escravoides em cubículos, que entra no automático e é executado e cobrado de forma robótica, não vai tratar a raiz disso, que é o desinteresse, a falta de empatia pelas próprias causas que queremos abordar, em um louco empenho para sustentar o que não se sustenta – a indiferença.

Assim acontece também com o que é público e depende de complexos jogos políticos e decisões pouquíssimo democráticas, apesar do que se fala, para funcionar. O discurso da democracia, portanto, já está perdendo suas estribeiras. Está à mercê de interesses bastante insustentáveis a maneira como se legisla a respeito de lugares para morar, o que plantar para comer, o que comer, e formas de ir e vir – discute-se tudo menos os interesses dos mais interessados. Como sustentar, por exemplo, essa sanha por ir cada vez mais longe com automóveis, trens, aviões, foguetes, se não passeamos a pé por nosso bairro, ou se não temos maneira fácil de chegar ao trabalho, à escola, ao hospital? A dependência dessa politicagem, a falta de envolvimento com os assuntos de nossa própria comunidade, e a falta de luta por alguns direitos básicos por parte da classe mais munida de conhecimento também são difíceis de sustentar.

Não sabemos até quando essa tremenda massa insustentável será contida, e se é mais válido gastar energia para evitar um colapso ou simplesmente abrir espaço para que ele venha: quem sabe não acontecem mudanças boas. O fato é que uma revolução profunda em nosso íntimo já se mostra muito mais do que necessária, é urgente! Se não temos força para mudar a nós mesmos, quem dirá para virar o mundo de cabeça para baixo por meio do neologismo mais usado e menos usado da história. Para termos uma percepção mais cristalina de quem somos e o que queremos, temos que identificar e admitir os erros e seguir em frente, e parar de tentar sustentar, de forma orgulhosa, o que há de pior e mais mesquinho em nós.

Meu querido avô, Octávio Araújo, hoje com 85 anos, gozava de certa fama nos anos 70/80, quando sua pintura estava em alta. A TV Cultura foi lá em casa falar com ele, em 83, pois era um dos personagens de um pequeno documentário sobre pintores. A última cena, em que apareço com mais ou menos 1 ano de idade, sempre me causou impressões diferentes a cada vez que assistia à fita, ao longo da vida. O vô, com voz de locutor, narra o meu caminho até seus braços, a passos desengonçados: "Lá vem o Allan, está chegando, está chegando! Veio anunciar uma nova era! Nós, as crianças, seremos os donos do futuro!" – é assim que me lembro da fala, mais ou menos, e hoje eu a acho mais profética e frustrante do que nunca.

O que se sustenta é o que se cultiva com amor. E só. Somos donos do futuro, sim, já o somos, e o futuro já chegou, está aqui em nossas mãos, como meu avô bem previu. Mas essa geração XYZ (pouco importam os rótulos) ainda guarda a noção de que as coisas devem ser controladas, estar sob o poder de alguém, e não se trata disso. É uma visão atrasada, um ato falho de nossos pais e meu avô, que exprime o desejo de posse sobre tudo, em uma sociedade que se orienta pela hierarquia – uns que podem mais e ficam com mais mandando nos outros, que apenas repartem as migalhas. Não basta sermos donos do futuro, do passado, do presente, do mundo: temos de amá-lo. E temos que fazê-lo juntos! Em vez de possuidores do futuro, com o perdão de corrigir meu avozinho, prefiro que sejamos amigos do presente.

Allan Araújo Zaarour é jornalista, assessor de imprensa, marido apaixonado da Thaís, blogueiro, musicompositor em diferentes bandas e pede desculpas por não proporcionar uma leitura lá muito rápida para o dinamismo dos tempos modernos.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Versão 4.4

Nas escrituras o número quatro representa a totalidade: os pontos cardeais, os elementos do universo, as estações do ano, as divisões do dia... Enfim, as partes que unidas formam o todo.

Mas, por que falar do número quatro e de seu significado? Porque comecei a escrever sobre este momento especial que estou vivendo - não apenas o de resgatar pessoas importantes que fizeram parte da minha história, mas o de ser resgatada por todas elas – e , calculando o tempo, relembrando datas, me dei conta que estou prestes a completar 44 anos.

Eis que surge o número quatro duplamente e pensei: isso deve ter um significado! De verdade, sou cética à numerologia, mas achei as explicações interessantes e sinérgicas com a Adriane 4.4. E esta nada mais é do que a soma, a totalidade, das várias experiências e das pessoas com quem dividi poucos ou muitos momentos.

Para entender quem sou hoje, usei a teoria do “SE” para indagar quem poderia ser se minhas escolhas fossem diferentes e se a vida não tivesse imposto tantas experiências alheias à minha vontade. Neste exercício, me questionei como chegaria aos 44 anos se não tivesse tido a família que tive; se não tivesse optado por deixar o interior e vir para São Paulo; se não tivesse terminado um noivado; se não tivesse entrado na LVBA; se minha mãe não tivesse morrido; se não tivesse me casado e tido a Bruna; se não tivesse perdido a Alice, minha outra filha; se não tivesse me separado; se não tivesse permanecido na agência por 20 anos...Se, se, se.

A resposta é muito simples: esse ser humano, desse outro universo, não seria a Adriane que escreve agora, que se permite reavaliar fatos, mudar de opinião e trazer de volta à sua vida pessoas que contribuíram - às vezes com alegria, às vezes com tristeza – para que se tornasse alguém flexível e com um olhar multifacetado diante dos acontecimentos. Mais do que isso, aceitar que nada é imutável ou definitivo e que o segredo de se sentir “total” é exatamente entender que nunca estaremos completamente prontos, pois somos como um mosaico que vai se formando ao longo dos anos – e só se acaba com a morte.

Comecei a refletir sobre essas questões, quando me deparei com novos desafios no trabalho e a constante presença de “novas velhas” pessoas em minha vida, no último ano: meu primo, que se afastou da família por “n” motivos; minha melhor amiga de adolescência que perdi o contato; ex-colegas da LVBA que retomaram contato; um amor dos meus 20 anos que voltou sem nunca ter ido e, por fim, o convite para participar de um grupo do Facebook formado por ex-alunos do Instituto Santa Úrsula de Ribeirão Preto, colégio em que estudei por quase uma década.

Voltando à questão do significado do número quatro, toda essa análise reafirma minha crença de que só podemos nos sentir plenos – mesmo com as infelicidades recorrentes – se SEMPRE tivermos a consciência de que há algo a ser somado ao nosso crescimento e de que é preciso ter um novo olhar, mesmo para o que já é conhecido, ou supostamente conhecido.

Hoje, às vésperas de completar 44 anos, eu me sinto assim.

Adriane Froldi é uma pessoa intensa, em todos os sentidos. Chega aos seus 44 anos com uma bagagem de vida que pode ser vista como uma lição para quem tem a chance de conviver com ela. Se a Adriane não existisse, teria que ser inventada. Se fosse inventada, não seria a Adriane que todos conhecem.