quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Diga ‘Xiiiiiiiis’!

Juro que vai parecer batido o meu assunto de hoje. E realmente é: O poder que as fotos têm e sempre tiveram em nossas vidas. Recentemente fiz uma viagem a Búzios, RJ, e enquanto tirava uma média de uma foto por segundo, comecei a conversar sobre isso com duas amigas (Marina e Carol, parceiras de blog também) o quão bom é poder ver as fotos imediatamente depois ao momento em que algo foi registrado. E começamos a divagar sobre o assunto porque tempo era o que não nos faltava para isso.

Sentadas no píer em frente ao mar esperando o sol se pôr, lembramos das várias situações em que as fotos não são detalhes, mas protagonistas da emoção, raiva ou qualquer outro sentimento causado. Há alguns anos, quando a gente viajava com a família, as fotos eram racionadas. Tinha que fazer um minicomitê na frente de cada paisagem e decidir que ali sim, valeria a pena ‘gastar’ uma foto do filme de 12, 24, 36 ou 48 fotos. Isso para não falar daqueles que passaram sua infância ou adolescência inteira sem nenhum registro porque as máquinas eram caras e a revelação dos filmes muito mais.

Depois, a expectativa era pra buscar as fotos reveladas na ótica. Geralmente, demorava cerca de dois ou três dias para que todas ficassem prontas. Aí minha mãe ou meu pai chegava com as mãos pra trás dizendo: Adivinhem o que eu trouxe? - Minhas irmãs e eu: As foooootooooos!!!!!! E juntos, sentados no sofá, íamos passando uma por uma, revendo, apontando detalhes, lembrando do momento, criticando e rindo da cara do outro ou lamentando o olho fechado naquela foto em frente às Cataratas do Iguaçu. E apesar de ficarmos um tempão admirando as fotografias, raramente eram mais que 50. Raramente.

Hoje em dia, se eu saio com as amigas para tomar um chopp no mesmo bar que sempre vamos, facilmente tiramos mais que 50 fotos. Facilmente. Uma viagem, então, ultrapassam as dezenas com certeza. E dependendo da animação e da variedade de lugares visitados ou de momentos agradáveis, 500 fotos definitivas (digo: descontando as apagadas ou as que são jogadas para a pasta ‘private’) são arquivadas em inúmeros diretórios identificados com data/local.

Mas não só de alegria vivem as fotos. Quem nunca rasgou a foto daquele ‘amor cachorro’? Ou daquela amiga que foi sacana com você ou que foi gente boa demais com aquele seu paquera? Ou ainda aquela foto em que todas suas amigas saíram maravilhosas e você saiu com cara de moribunda? Aí o sentimento quase vira do avesso quando você pega aquela foto de você pequenininha com a turma do maternal ou carregando no colo seu irmãozinho que hoje tem dois metros de altura. Ou ainda, dá um risinho e sente um friozinho na barriga quando vê sua foto num abraço apertado com seu avô que já se foi.

Enfim, o fato é que fotos causam emoções nas pessoas. Das mais diferentes naturezas. E que o mundo seria sem graça se não pudéssemos reviver os bons momentos depois. Sem desmerecer a memória, claro.

Mayra Martins é relações-públicas e queria ter o dom de tirar fotografias em que todos sempre saem bem e em que lugares feios parecem exóticos. Mas se conforma em ser a que sempre leva a máquina fotográfica para as viagens e não demora a compartilhá-las com o grupo depois.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Líquido precioso

Só passamos a entender o valor real de algo quando aquilo nos falta. A máxima, que nada tem de nova, vale para quase tudo: dinheiro, amigos, amores e todas as coisas pequenas que fazem parte da nossa vida. Entre elas, a água.

Nas últimas férias de final de ano, eu e uma turma de amigos descobrimos (de uma forma não muito agradável) o incomensurável valor da água no nosso dia a dia. Foram oito dias no litoral, todos eles com o abastecimento de água restrito ou inexistente, durante os quais tivemos de aprender a economizar, compartilhar e planejar o uso de algo que sempre tivemos em abundância.

A experiência trouxe ao menos duas boas lições para mim. A primeira foi perceber como, com um pouco de boa vontade, é possível atravessar situações complicadas sem estresse. Estávamos em um grupo de 20 e poucas pessoas, espalhadas por três casas – todas elas sofrendo, em intensidades diferentes, com o problema da falta d’água. Mas o que poderia ter transformado nosso Reveillon em um inferno, acabou instigando a criatividade, o espírito de cooperação e a proatividade de todos. E (quase) sempre rindo da situação, conseguimos encontrar formas de tomar banho (quase) todos os dias – ainda que puxar a descarga não fosse algo bem-visto...

Outra lição valiosa foi a de que “economizando, não faltará”. Obviamente, sei de todos os apelos globais sobre a necessidade de economizar água e de se cuidar melhor do meio ambiente. Mas, confesso, sempre fui fã dos banhos longos e despreocupados e quase nunca me lembro de fechar a torneira enquanto escovo os dentes. Isso mudou.

Entrei neste novo ano um pouco mais consciente e cuidadosa com o planeta. Não só por ter percebido que viver sem água seria impossível, mas principalmente por ter me dado conta de que posso abrir mão de alguns pequenos luxos sem prejuízo algum para minha vida.

Feliz 2010!

Thais Aline Cerioni queria ser cantora, mas, como não veio de fábrica com esse talento, acabou virando jornalista mesmo. Há dois meses está experimentando a vida "do outro lado do balcão". E gostando!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Déjà vu

Chegamos àquela época do ano em que a mídia se divide para escolher uma entre duas alternativas: Retrospectiva ou Previsão.

O interessante é que este dilema não é exclusivo da mídia geral. Atinge-nos a todos, em todas as áreas, da política à economia, do noticiário internacional à moda, da indústria ao esporte – é; com o final de campeonato, as férias dos jogadores, teremos uma permanente mesa-redonda sobre este 2009 de tantas lembranças.

Não que seja contra, pode ser até divertido rememorar certos fatos, certas declarações, certas promessas que, entre outras tantas, vieram a ser desmentidas ao longo de 2009. Haverá, claro, os campeões de audiência. Ocorrem-me dois, assim de improviso: a crise mundial e a escolha do Rio como cidade-sede das Olimpíadas. Se eu pudesse escolher, teria dado o maior destaque a um fato até recente: a atitude da passadeira de Brasília que encontrou um envelope com dinheiro à sua porta e foi entregá-lo à polícia. Por que esta escolha? Porque ela não teve dúvidas, não teve hesitação. Não se importou com o dito popular “achado não é roubado”. Simplesmente seguiu a lógica: não é meu, logo não tenho porque ficar com ele. Isto, em meio a uma torrente de denúncias contra uma série de personagens que têm por obrigação zelar pelo dinheiro de todos nós...

Acho melhor ficar com as previsões. Para falar a verdade, até vou arriscar algumas, apesar de ser um principiante na leitura de arcanos, trânsitos e búzios:

- Um líder de importância internacional vai morrer em 2010 (só um?);
- O casamento de uma conhecida artista do show business chegará ao fim;
- A expressão mais ouvida em 2010 será “nunca antes na história deste país)” em todas as suas variações;
- O trânsito de São Paulo baterá recordes de congestionamento, devido a um trânsito de Saturno muito complicado;
- Uma conhecida artista do show business irá se casar em segredo, com ampla cobertura da imprensa;
- Conhecida figura política terá seu nome envolvido num escândalo. Ele protestará inocência e seus opositores dirão que o caso será apurado com todo rigor;
- A torcida brasileira não concordará com a lista de convocados da seleção canarinho.

E, por fim, uma séria: cada vez que um de nós toma uma atitude para mudar o mundo, por menos que seja, ele muda. Esta revolução tem que acontecer pela individualidade, pela consciência e pela ação de cada um de nós. Tenho confiança que veremos muito disso em 2010.

Flavio Valsani é Diretor Executivo da LVBA Comunicação e mal pode esperar pela enxurrada de retrospectivas....

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

(Sem) Os prazeres da carne

No dia 29 de novembro, tomei a decisão de aderir à dieta vegetariana. Era algo que eu vinha pensando há bastante tempo, principalmente por ser uma amante de animais desde que me conheço por gente. Só não sabia por onde começar. Na verdade, já tinha colocado a ideia em ação no ano passado, quando passei uns nove meses sem comer carne vermelha, porque achava que largar tudo de uma só vez seria muito mais difícil. Afinal, comer um filezinho de frango de vez em quando ameniza a falta da picanha, certo? Errado.

Para mim, pelo menos, não deu certo, tanto que faz mais de um ano que voltei a comer todos os tipos de carne, simplesmente por fraqueza. É isso mesmo, não me mantive fiel aos meus objetivos porque não aguentei. A carne deve ser um dos piores vícios que existe! Se você fuma, tenho certeza que você come carne há muito mais tempo, mas ainda não percebeu que é tão viciante quanto, porque você está muito mais acostumado! Parece que não, mas é muito difícil. E eu, como prova (e não devo ser a única), cedi aos prazeres do churrasco & amigos.

E é nesse ponto que você me pergunta: se não aguentou, vai tentar de novo por quê? Porque me senti muito bem durante todo o período do ano passado que passei sem comer carne. Meu irmão influenciou muito essa decisão, mesmo sem saber. Para esclarecer, vamos dar uma volta no túnel do tempo: por mais de seis anos, ele foi vegetariano e todo mundo da família sofreu por consequência. Minha casa, onde antes reinava picanha e filé mignon, passou a ser dominada por soja e tofu. E eu, no auge dos meus 11 anos, não entendia a necessidade dessa mudança na minha alimentação. Claro, minha mãe não cortou toda a carne do cardápio, mas a mudança foi drástica o bastante para mim e meu pai, grandes carnívoros. Depois, acabei me acostumando – meu pai não.

Mas vamos voltar a 2009. Diferentemente do meu irmão, deixei de comer carne vermelha por compaixão. Não, não vi nenhum documentário chocante de ONGs que defendem os direitos dos animais, como o famoso "A Carne É Fraca", do Instituto Nina Rosa, mas muito pelo contrário. Muitos acontecimentos na minha vida pareceram se encaixar com as minhas ideias. Em janeiro, uma amiga aderiu ao vegetarianismo e, por causa da minha experiência do ano anterior, sempre trocamos informações sobre o assunto, o que despertava ainda mais minha vontade de também fazer parte desse grupo. Uma das dicas dela foi justamente essa: largar de uma vez, porque senão é mais fácil ter uma recaída (se você já tentou parar de fumar, deve ter a mesma sensação, não é?).

Mais tarde, fiz um trabalho para a faculdade sobre a PEA, ONG que trabalha, entre outras coisas, com a conscientização da importância dos animais para o equilíbrio ambiental. Eles não pregam, necessariamente, o vegetarianismo, mas quase todos os outros materiais que utilizei para complementar o trabalho falam sobre isso, o que me deixou com ainda mais vontade de adotar a dieta. E, de qualquer forma, eu já era apaixonada por animais, e isso é completamente irreversível.

Quando me dei conta, já estava pesquisando na Web várias informações sobre o tema, diferentes tipos de dietas vegetarianas (a que adotei, por exemplo, é a ovolactovegetariana), marcando consulta com nutricionista para saber quais substituições terei que fazer, conferindo experiências de pessoas e casos bastante polêmicos relacionados a direitos animais, como um dos posts na coluna do André Forastieri – admita, não é preciso ser vegetariano para ter uma pontada de raiva desse promissor comedor de cachorrinhos.

Dentre essas e outras que percebi que a carne não é um item indispensável na minha alimentação e, ignorando Paul McCartney e seu Meatless Monday, parei radicalmente com o consumo desse alimento. Mesmo estando só há duas semanas e meia seguindo rigorosamente essa dieta, acredito que vou conseguir me livrar desse vício de vez por um bem muito maior do que os momentos prazerosos à mesa. Então, para mim e todos os outros viciados em carne que se abstiveram de suas vontades, não importa qual seja o motivo, mais 24 horas!

Natalia Máximo é estagiária da LVBA e vai para o terceiro ano de Relações Públicas nas Faculdades Integradas Rio Branco. Quando era criança, queria ser veterinária, mas, como não consegue ver sangue sem passar mal, viu que seu amor por animais não teria comprovação acadêmica. Acredita que, se sobreviver à abundância de carne das festas de fim de ano, sua dieta vegetariana estará a salvo. Está procurando um jeito de convencer seus pais de que essa mudança na alimentação não vai afetar sua saúde. Se você souber como, fale com ela aqui.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

For Those About To Rock - AC/DC no Morumbi

Não pesquisei para fazer esse texto. Não me preparei. Apenas escreverei o que sinto, o que senti, o que vivi. Só sei que nada sei de AC/DC. Na verdade, quase nada. Até pouco tempo, ainda confundia canções do Kiss com as deles. Sim, apesar de adorar música e rock, não estou nessa praia. Antes do show, só conhecia duas faixas da banda: "Back in Black" (que a propaganda da Ford está destruindo) e "Highway to Hell". Coisas do destino, ganhei ingressos para a apresentação única deles no Brasil, no Estádio do Morumbi, sexta passada. E aí começou a história desse show incrível.

Em dezembro último, também tive a oportunidade de ir a um megashow de graça. Foi o da Madonna (o post, inclusive, está aqui). Como a cantora, AC/DC é um nome clássico no meio musical em todo o mundo. Estão por aí há um tempaço e, por todos os lugares que tocam, é sempre garantia de lotação máxima. Mas acho que qualquer tentativa de comparação acaba aí.

AC/DC, como falei no começo do texto, não está no meu vocabulário musical. (aliás, até hoje nem sei o que esse nome significa). É uma banda muito popular entre fãs de rock - assim como Kiss, Led Zepellin, Black Sabbath e outros similares. Basicamente, o fã perfil "Escola do Rock".

Mas esse tipo de rock, por alguns chamado de metal, não faz parte das músicas que escuto diariamente no carro ou no computador. Não curto vocalistas de voz aguda e que em alguns momentos parecem mais gritar que cantar (é a minha opinião, fazer o quê?).

Quem me conhece sabe que minha vertente do rock vai mais nas origens (Elvis, Jerry Lee Lewis, Johnny Cash) e/ou para um rock com levadas blues/funk/soul (Blues Travelers, Marvin Gaye, J.J. Cale), sulista (Allmann Brothers, Lynyrd Skynyrd, Tony Joe White) ou britânicas (Rolling Stone, The Beatles), entre algumas outras. Mesmo em bandas com uma pegada soft metal, como Bon Jovi, eu curto mais quando é um esquema acústico ou mais leve.

Mas isso jamais me impediria de ir a um show do AC/DC. Fui sem preconceitos, esperando alguma coisa boa. Claro que o famoso esquenta, à base de Jim Beam, ajudou muito. O próprio AC/DC, tocando no volume máximo no som do quarto, também. Chegamos para o show 22h (sem filas, sem confusão, tudo tranquilo) e, pouco depois, os cara já começaram. E, para resumir: curti demais. Os caras do AC/DC já estão velhões. Mas tocam muito. Mandam muito bem. O guitarrista dos caras fez um solo de uns 15 minutos. A banda mostra porque está na estrada há tantos anos. Domina a plateia e faz dela o que quer. Setenta mil pessoas foram comandadas pelo grupo australiano. Foram à loucura, gritaram, perderam as vozes. E comigo não foi diferente. Cantei as poucas que conhecia. Aprendi na hora as várias que não sabia. E pulei até cair, literalmente.

Em meu currículo de shows que já fui, o AC/DC não ocupa o primeiro lugar da lista. Mas certamente fica entre os cinco mais, talvez entre os três. A presença no show deles também não vai mudar muita coisa. Não vou comprar CDs ou começar a ouvir mais do que antes. Até porque a diferença entre o que se ouve em um CD e no estádio é colossal, abismática, discrepante.

Colocando à parte toda a importância que eles têm para o rock, eu digo tranquilamente: AC/DC, eu os saúdo.

Luís Joly é músico de ouvido. Adora não conhecer tudo de música e descobrir assim, aos poucos. Começou sem querer, com Elvis, e aumenta a cada dia, a cada hora. Veja o que mais ele tem a falar sobre música e outros assuntos em http://jacksenna.blogspot.com

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Prazeres e dificuldades de ser um pai solteiro

Ao contrário do que alguns imaginavam, não escreverei sobre música. Resolvi falar sobre algo muito mais significativo e valioso na minha vida – aliás, é o que há de mais importante nela: minha filha, Giulia.

A paternidade para mim aconteceu bastante cedo, aos 21 anos e, lógico, não estava preparado para tamanha responsabilidade. Hoje aos 28, aprendo a lidar com toda a complexidade de ser pai a cada dia com a Giulia, e a amo ainda mais por isso. Mas, mesmo que o tempo e a experiência tragam o aprendizado, continuo a me sentir perdido. Afinal, a criança quando nasce não vem acompanhada de um manual de instruções, bula, receita ou algo que nos dê a fórmula certa ou respostas diretas.

Colocá-la para dormir, trocar fraldas, dar banho, comparecer à reunião de pais na escola, inventar brincadeiras dentro e fora de casa... Ainda que a lista seja longa, as preocupações que envolvem esse relacionamento de pai e filha vão muito mais além dessas tarefas. Meus maiores questionamentos são referentes ao estudo, ao tipo de educação que estou proporcionando a ela versus àquilo que acredito ser ideal. Muitas vezes me questiono em relação aos valores que estou passando e de que forma ela os tem absorvido. Será que o motivo de eu ser tão envolvido com essas questões é por que sou um pai solteiro e tenho a Giulia morando comigo? Pode ser...

Acredito que esse título requer um equilíbrio emocional maior. Digo isso porque, enquanto o pai – quando casado – divide frequentemente com a mãe a responsabilidade sobre decisões que envolvem os filhos, o pai solteiro tem um comportamento diferente nas decisões do dia a dia: este último conta com uma autonomia natural que a própria realidade impõe.

Não tenho a menor dúvida de que ser um pai solteiro é uma das tarefas mais difíceis que existem, ainda que eu conte muito com a ajuda da minha mãe. E é justamente daí que surgem outras importantes questões, como: Qual é a medida da sensibilidade? Como é possível passar mais tempo com ela e trabalhar o mesmo tanto?

Não há dúvidas sobre a dificuldade – inerente aos pais do mundo atual – que existe em equilibrar o trabalho, crianças, levar à escola e estar ciente do que lá acontece, ajudar nos estudos, cuidar da dor de garganta, levar ao médico... Sem contar que eu também quero – e preciso – ter um tempo para mim: curtir minha namorada, estudar, ensaiar com as minhas bandas e tudo o mais. Claro que a parte financeira sempre pesa. Principalmente no meu caso, que tenho a guarda da Giulia.

Seja à parte ou em meio a cada uma dessas lutas, as crianças e as suas necessidades de atenção, tempo de qualidade, orientação e os cuidados do dia a dia, mostram-se esmagadoras. Às vezes, sinto que cada área da minha vida acontece – ou seria melhor dizer equilibra-se – como um show de malabarismo. Até porque, todo dia ao chegar em casa do trabalho, dedico pelo menos algumas horas para estar com ela. Brincamos de videogame, trocamos a roupa da Barbie, leio histórias e ajudo na lição.

Mesmo com todas as dificuldades, dúvidas e confusões, ser pai mudou a minha vida, e de uma maneira muito boa. Assumi responsabilidades, amadureci muito e creio que meu individualismo, que fora muito intenso, diminuiu. Só sei, de fato, que hoje não consigo imaginar a minha vida sem essa pessoinha, a mais linda do meu mundo!

Pedro Martins Lanfranchi nasceu, cresceu e desenvolve-se músico a cada dia. O acaso lhe deu o título de pai solteiro, mas foi o amor que o transformou em pai comprometido. Não é paraquedista, mas o cargo de assistente de atendimento na LVBA ‘caiu como uma luva’ e só comprova ainda mais sua teoria de que a vida é um constante show de malabares.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Críticas à crítica

Há 20 anos, comer salmão e tomate seco era privilégios de poucos endinheirados. Tidos como produtos gourmets, hoje “se popularizaram” ao ponto de encontrá-los em bufê de restaurante de comida por quilo. Salmão e tomate seco são apenas exemplos de uma longa lista de ingredientes e iguarias que globalizaram o cardápio dos brasileiros.

Neste período, não foram somente os hábitos alimentares dos brasileiros que mudaram. O jornalismo gastronômico – ou o que se convencionou assim chamá-lo – também se transformou. Pouco a pouco, surgiram novos – e caros – restaurantes dedicados à alta gastronomia e, lentamente, foi se constituindo uma casta de comensais exigentes, a ponto de alguns deles se tornarem com o passar dos anos verdadeiros connoisseurs, isto é, competentes o suficiente para emitir julgamentos sobre a arte culinária, assim como outros tantos o fazem com outras manifestações artísticas.

Até então, a única grande referência em “jornalismo gastronômico” era o Guia 4 Rodas, com seu roteiro de restaurantes e bares, estrelados ou não – desconsideremos a Claudia Cozinha, também da mesma Editora Abril, com foco em receitas e dedicado exclusivamente ao público feminino. Mas pode-se chamar de jornalismo gastronômico uma lista de estabelecimentos comerciais do Oiapoque ao Chuí? Eis a questão. Ou a primeira delas.

Se há um mercado – mesmo que à época incipiente – de alta gastronomia e pessoas que queiram saber mais sobre pratos e quem os cria e a indefectível combinação deles com vinhos, há potencial público-leitor. Com isso, começaram a chegar às bancas e mesas publicações como a Gula, Prazeres da Mesa, Menu, Alta Gastronomia, Comer e Sabor – as duas últimas já tragadas pela voracidade do mercado editorial. Jornais, como a Folha e o Estadão, dedicam aos temas do paladar páginas ou cadernos e guias semanais.

Um pouco mais tarde, juntam-se aos impressos os sites segmentados, trazendo as novidades recém-saídas dos fornos e fogões. Blogs dão seu piteco e colocam uma pitada de sal no assunto ou mesmo requentam ad nauseam aproveitando as sobras das criações alheias. Finalmente, comendo com pressa e por fora, há o Twitter, o fast food das redes sociais, que traz dicas de onde e o que alimentar-se nesta cidade que devora a todos.

O boom do segmento editorial dedicado à gastronomia deu aos jornalistas amantes da boa mesa a oportunidade de desenvolverem, aprimorarem e exercitarem seus conhecimentos num segmento que requer muito mais que ser um bom garfo e ótimo escriba. Ser jornalista gastronômico é ser um glutão que se nutre de notícias recheadas de novos pratos, preparados com ingredientes de primeira e, se possível, exóticos, criados por chefs revelação ou consagrados de restaurantes seletos e disputadíssimos. Isso lhes confere glamour, mas também a necessidade de estabelecer e manter relações um tanto quanto questionáveis do ponto de vista ético com chefs e profissionais a seu serviço, incluindo os assessores de imprensa. Vale tudo por uma pauta ou para ficar de bem com a fonte? Boa pergunta.

Mas as relações podem ser ainda mais, digamos, “complexas”. No Brasil, assim como em outros países, há jornalistas que se posicionam como críticos gastronômicos, mas apoiam ou mesmo promovem eventos com a presença de chefs que são, precisamente eles, pautas dos mesmos críticos. Em outras palavras: num incontestável conflito de interesses, mantêm negócios com os chefs. Segundo o crítico gastronômico alemão Jörg Zipprick, em entrevista a este escriba, seus coleguinhas não criticam os chefs-estrelas que caminham pelos tapetes vermelhos dos festivais, organizados por ou com a ajuda dos jornalistas. Críticos ou aduladores? É de se perguntar, então.

Um bom exemplo da renúncia ao exercício da crítica por parte de muitos jornalistas é o que acontece com os artigos sobre as criações do “mejor cocinero del mundo”, Ferran Adrià, assim apontado pela quarta vez neste ano pela revista britânica Restaurant. O chef catalão do restaurante elBulli é idolatrado por jornalistas pelas suas inovações culinárias, conhecidas sob diferentes alcunhas de gastronomia molecular, cozinha técnoemocional ou cozinha de vanguarda. Contestá-lo é tarefa para poucos.

Um deles é o crítico gastronômico do jornal barcelonês El Periódico, Miguel Sen. Ele não se conforma que Adrià tenha se convertido, e o tenham convertido, na unanimidade que é e que sua cozinha seja hoje a referência mundial da culinária espanhola – ou simplesmente “a” referência mundial do que é a alta gastronomia atualmente. Para Sen, autor do livro Luzes e sombras no reinado de Ferran Adrià, questioná-lo, assim como a sua cozinha, beira à apostasia.

“Qualquer crítica, inclusive a mais respeitosa, é entendida como blasfêmia que atenta contra a pátria e seu cozinheiro-estrela”, afirma, em estrevista a este jornalista. Zipprick – o jornalista alemão que escreveu No quiero volver al restaurante!, com críticas à Adrià ao uso de substâncias químicas, como colorantes, aromatizantes, conservantes e potencializadores de sabor, algumas delas, dizem especialistas, com o risco de danos à saúde –, vai além. Para ele, há uma espécie de omertà entre críticos e chefs.

Sen é um dos que evita referir-se aos críticos, como críticos. “Muitos deles estão ligados a empresas de publicidade ou a eventos gastronômicos. Outros dependem das feiras que organizam, em muitos casos com o apoio dos jornais para os quais escrevem. Nestas condições, é impossível que não se cumpra a lei de omertà”, vaticina. Sen não fala a esmo. O proprietário de uma assessoria de imprensa, que tem como cliente a Relais & Châteaux (rede formada por 480 hoteis de alto luxo e restaurantes gourmet em 56 países), por exemplo, é também crítico gastronômico.

Segundo Zipprick, muitos dos críticos pouco põem os pés na redação dos jornais ou revistas onde trabalham, preferindo vagar de evento em evento gastronômico para seguir “seus chefs”. “Antes, os críticos costumavam ser críticos. Agora, eles só estão lá para aplaudi-los”, diz, contrariado. Última pergunta, e fecha-se o pano: A crítica gastronômica é, então, confiável? Na dúvida, coma no seu boteco preferido.

Milton Rizzato é jornalista formado pela Unesp-Bauru, com rápida passagem pelo curso de Letras-Italiano da FFLCH-USP, e mestrando em História e Cultura da Alimentação pela Universidade de Barcelona (Catalunha), feito em parceria com as Universidades de Bolonha (Itália) e de Tours (França). Em uma das pausas em sua trajetória, trilhou pelo curso de Cozinheiro do Senac-Campos do Jordão e, posteriormente, foi professor e responsável pelo Garde Manger, área da cozinha onde se preparam as entradas e pratos fora de hora. Torce pelo Palmeiras, mas não tá nem aí para o campeonato. Gosta de alta gastronomia, mas não de suas frescuras. Assim como Tom Jobim, acha que se há perfeição, está na simplicidade. “Nada melhor que arroz, feijão, ovo e salada, da minha mãe, claro”, sentencia.